Este célebre pensamento de Sartre aplica-se com cruel frequência na vida de quem trabalha com criação.
Quem é da área sabe do que estou falando. Você estuda anos a fio (e continua a estudar pela vida toda, todo dia, analisando tudo o que vê) para se formar como designer, ou publicitário, ou qualquer coisa do gênero pra quê?
Para você receber um job, normalmente com o briefing meia-boca (quando se tem um), um prazo “para ontem” (padrão na área), a verba alocada para o job é enxuta (99% dos casos) – o que inviabiliza boa parte de itens que seriam importantes como contratação de um fotografo, modelo, locação de cenário, etc – e dadas estas condições o cliente mesmo sem explicar direito o que quer, fala mesmo assim que quer algo “revolucionário”.
Vc, como bom profissional, quer satisfazer na medida do (im)possível seu cliente, então parte para uma pesquisa, para levantar informações básicas para a sua criação. Define um conceito, cores, formas, etc… enfim faz das tripas coração e aí o seu filhote nasce! Talvez não tão robusto como vc gostaria que fosse, mas mesmo assim ao olhar para ele vc se sente orgulhoso.
Pena que esse orgulho logo se transfigura em frustração… ao ver seu trabalho, o cliente começa a pedir as “pequenas” mudanças. Tipo: “ah! o vermelho não está legal. Muda o vermelho para azul, pois o vermelho é uma cor ingrata, nunca se tem controle de como ele vai sair impresso”, ou: “coloca mais texto neste anúncio, vamos aproveitar o espaço para divulgar mais nossos serviços”. No fim do processo, que pode demorar várias idas e vindas, o seu trabalho inicial foi tão descaracterizado que vc diz para vc mesmo: “eu me recuso a incluir esta peça no meu portfolio”.
Mesmo sabendo que os clientes agem assim porque muitas vezes o ofício de criar esbarra em questões subjetivas, não deixo de ficar puto da vida por perceber que muitas vezes tais pedidos de “pequenas mudanças” são feitos por que o cliente pensa que manja de criação e acaba tratando o profissional que contratou como um “micreiro”. Isso acaba com o tesão de qualquer profissional que tenha um mínimo de amor-próprio.